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Pai, me ensina a ser palhaço.

10/03/2011


Já dizia o personagem do Cordel do Fogo Encantado “Pai, me ensina a ser palhaço”. Pai, me ensina a sorrir a noite, um sorriso que se mostre pr’essa gente. Nesse mundo que é triste, debaixo dessa lona rasgada, desculpa ter ignorado o circo, pai, me empresta esse sorriso. Esse mundo está doente, o palhaço mal responde. O circo está pegando fogo. “E essa tragédia que é viver, e essa tragédia. Tanto amor que fere e cansa.”

Os egípcios marcaram em suas pirâmides a existência de domadores e contorcionistas. Na China, festivais de acrobacias atraiam o público. As famílias de saltimbancos surgiram em Roma, na era medieval; Improvisavam apresentações de diversos tipos em praças e ao redor das cidades. Eram palhaços, dançarinos, malabaristas; passeavam fazendo truques, escondendo segredos, provocando sorrisos. Foi no século XVII que surgiu o picadeiro circular, também na Europa. Os ciganos começaram a fazer circo pelos lugares que passavam. E aí estava a cultura do circo instalada em toda parte.

Hoje, com diversas mudanças: Direção de arte, fantasias fabulosas, câmeras, palcos que giram, cordas resistentes, escolas de teatro, de ginástica e de artes… O circo ainda é itinerante. O circo é fabuloso naquele brilho de quem vê, e na vontade de ir além que o circense tem. O circo só faz sentido em movimento: Nas cordas, no tecido, enquanto gira. A vida do circense, que vive de circo, é dedicada àquele que precisa do circo pra viver. E é um caminho que se cruza, é quase o mesmo.

As crianças, mais puras e com olhar virgem, vendo o fogo subir ao céu, com um sopro. Observando a dança da mulher-gorila. Saindo de casa, pra um mundo novo apresentado a ela. Todo cd infantil tem uma música do circo. Toda criança deveria visitar o circo, principalmente aquelas que nunca dantes fizeram. E aquelas pessoas com sede. O circo mata a sede e saliva a boca. Pede mais, quer ir junto. Seguir a bailarina, um romance com o equilibrista. Sem equilíbrio, atirado, aprendiz.

Eu estava reparando que o circo serve de ponto de fuga, objetivo, ou perdido. É um símbolo. Das imagens do circo no cinema, às letras de música. Ingmar Bergman sempre usou elementos do circo pra representar a atmosfera mais leve de um filme. Geralmente jovens ciganos, usando um casal com um bebê de forma incrivelmente significativa em O Sétimo Selo. Tim Burton utilizou da estética do circo pra criar o visual e o cenário do romance de Peixe Grande. Em Medo e Delírio, o circo é usado em uma das alucinações do personagem, dando ênfase à confusão, dentro de um carrossel. Nos filmes infantis, a Disney já utilizou a linguagem circense no fantástico A Vida de Inseto e no caótico Dumbo. É tudo lúdico, é brincadeira, é confuso, porque é a perda do foco. E eu sou a favor de qualquer manifestação que evoque alegria!

Rita Lee cantou um romance de um trapezista, uma bailarina e um palhaço não-correspondido “Mas nem sempre é possível ter um final feliz pra animar. E lá no meio do picadeiro o show não pode parar”. Nara Leão e Chico Buarque também dedicaram canções ao circo. Vozes estrangeiras, também, como Michael Jackson e Eric Clapton. O circo está em toda parte, é uma manifestação artística necessária.

Em uma cidadezinha, um menino, batizado Pacú por um palhaço, vê sua família no interior do nordeste se afundando numa tradição de vingança e durezas. Seu irmão condenado a morte, vivendo uma história de amor com a acrobata que deu um livro de animais do mar para o menino. O livro sem lado errado. O livro dos desenhos que lembram a história. Da sereia com saudade do menino. O menino que gosta tanto do mar e acabou recebendo nome de peixe do rio. São os olhos dele que brilham. O circo foi feito pra ele. E ele consegue enxergar o circo salvando também seu irmão do destino sem sentido. De uma regra inventada. Por que inventar algo sem tinta? Sem fantasia, sem sorriso? E foi esse filme, lindo, que me inspirou a escrever esse texto. Assisti hoje pela segunda vez Abril Despedaçado e meus olhos aqui brilharam, movidos por uma arte de imagens numa tela, que também me levou a um lugar sem forma, onde eu paro pra pensar que não entendo mais o mundo. E a única coisa fácil de compreender foi o circo.

O circo que, passando de arte em arte, de tempos em tempos, se movimenta como os ciganos da Europa, marcado para sempre nas pirâmides do Egito; e dentro de mim também. Porque, afinal, nunca vou me esquecer das vezes que eu mesma estive dentro do circo. Nunca me esquecerei do meu queixo descendo à três fileiras do palco do Cirque du Soleil. Minha cabeça girando o palco sem perceber. O magnetismo. Nunca, nunca vou me esquecer desse imã que me raptou. E me levou para um canto de amor, daqueles eternos que eu ainda canto e me deixo encantada ser.

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2 Comentários leave one →
  1. Camila permalink
    27/03/2012 22:48

    Nossa! Achei o texto muito por acaso, e o interessante que num dia nada por acaso. Muito bom tudo… texto, filme e, claro, o circo. Sou amante dele também e esse magnetismo que acontece é algo incrivelmente mágico, coisa de picadeiro mesmo.

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  1. Palhaços, mágicos, malabaristas e outras atrações artísticas « Móbile-do-Astronauta ®

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