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Meu mundo e o dos outros.

16/12/2009

De novo voltando à infância. Minhas saudades se descontrolam dentro de mim vez ou outra. Nesse final de semana fui ao casamento da minha prima e encontrei uma priminha minha de 2º grau, que deve estar com uns 5 ou 6 anos. A Gabi. Ela nem me reconhece, do tanto que hoje em dia eu ando meio arredia de eventos familiares e etc. Mas acabamos por conversar e inventei uma história pra ela de que estávamos em perigo e que a gente tinha que salvar aquele lugar escondidas. Incrível como eu sinto falta deste mundo, onde essas coisas eram completamente verdadeiras para mim… Mas me surpreendi. Eu realmente entrei na história, e senti dentro de mim todas as aventuras que eu tinha com a minha irmã quando eu tinha a idade da Gabi.

Acabou de surgir uma ideia na minha cabeça. Todas as crianças deveriam ser bonecas. Quero dizer, deveríamos brincar como se estivéssemos brincando de Barbie. E eu não tô querendo dizer arrumar e maquiar a pobre criança. Tô dizendo sim, que devemos criar esses mundos de aventuras a cada brincadeira. Sentirmos que somos um personagem lidando com outro. Precisamos parar com nossa mania de achar que a criança precisa aprender a se comportar direitinho e não deve falar besteiras. Pra criança, o mundo é outro mundo. É tudo lúdico. E se quisermos quebrar isso, vamos só causar traumas futuros.

Gosto de uma ideia que o Jostein Gaarder coloca no seu livro “Através do Espelho”, de que ao nascer uma criança, não é o mundo que ganha mais uma pessoa, e sim o mundo que estava embalado de presente esperando por ela. O mundo é dela, e não o contrário. Então deixemos ela criar seu mundo ao invés de querermos moldar isso.

Enfim… Acho que só me sinto tão sensibilizada com isso porque apesar de ter tido alguns problemas na infância, eu nunca fui limitada a pensar ou a imaginar. E eu percebo hoje que isso foi tão bom e importante pra mim, que não deixo que essa sensação de moldar meu próprio mundo saia de mim. E quero que as outras pessoas moldem o mundo delas também, e não ousem permitir que o senso-comum transforme-se em sua verdade absoluta.  Não aguento mais ver por aí e escutar tantas histórias envolvendo tanto sofrimento infantil. Eu adoro o mundo de cada criança, e gosto de aproximar deles o meu próprio globo.

WordPress

28/11/2009

Pronto. Me sinto melhor aqui. Estava me cansando das poucas possibilidades que eu tinha no blogspot, daí vim pra cá. Eu copiei e colei todas minhas postagens anteriores pra não perder o arquivo antigo. O Tiago vai me ajudar a deixar o layout mais bonito e enquanto isso vou recolocando as imagens dos posts antigos e organizando minha cabeça também. Acho que, cada vez mais, o fato de escrever em blogs me ajuda a me manter sóbria e mentir para mim mesma, a partir de palavras. Quando eu leio o que escrevo descubro em mim personalidades mil. Algumas que até já se esvaem assim que eu clico “publish” aqui do lado direito da tela.

Talvez eu até compre um domínio .com para o Notas de Saída. Se tudo der certo, claro. É engraçado eu investir em um blog que praticamente ninguém lê, a não ser eu mesma. Mas não me importo. O Passatempo Letrado continua lá, firme e forte, com o blogspot: http://www.passatempoletrado.blogspot.com .

Lula – O Filho do Brasil, de Fábio Barreto

19/11/2009

Fui assistir o filme Lula, O Filho do Brasil (baseado no livro de Denise Paraná) na estreia mundial, na abertura do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Consegui o convite de última hora, e lá fui eu junto com minha mãe. Chegamos com uns 20 minutos de antecedência, e a fila do lado de fora do Teatro Nacional dava duas voltas da sala Villa-Lobos à Martins Penna. Um público diferente do usual: Além dos cinéfilos e cineastas que estão sempre presentes no festival, haviam muitos ministros, deputados e etc. O que deu ao festival uma superlotação desordenada. Entrando na sala da exibição do filme, minha mãe e eu pegamos os últimos lugares livres, a última fileira das cadeiras extras (no centro, pelo menos). A sala tem 1400 lugares e umas 200 cadeiras extras. Mas mais de 2000 pessoas compareceram. Algumas pessoas precisaram assistir a tudo em pé pois nem nas escadas sobrava lugar pra sentarem.

A questão é que distribuíram muitos convites para autoridades, e elas levavam mais pessoas junto. Enfim, na hora que Barretão e Barretinho subiram no palco, arrogantes, reclamaram da desorganização. Barretão dizia que todos ali estavam correndo risco de vida e que exibiria uma sessão extra mais tarde para as pessoas sem lugar para sentar. Recebeu em troca gritos revoltados do público, que só queria assistir o filme logo. Depois Barretinho vem nos informar que “artistas como Glória Pires” não tinham lugar para sentar. E ousou pedir pra que uma fileira de mais ou menos 30 lugares levantasse pra deixá-los sentar. E aí vieram as vaias. Que bom, sinceramente. Porque ninguém que chegou ali mais cedo pensando em conseguir um lugar pra sentar tinha culpa da falta de planejamento da organização do festival. Glória Pires que se sente no chão. Não estávamos todos lá na mesma situação? Fábio Barreto ainda ousou dizer durante a apresentação do filme que aquilo que iriamos assistir era uma “obra de arte feita para divertir vocês”. Ok, podemos ver como é nula a prepotência do próprio diretor do filme falar isso sobre sua obra e, ainda por cima, confundir arte e entretenimento.

A partir da arrogância desses dois, fiquei com um pouco de pé atrás de como reagiria ao ver um filme realizado por eles. Mas, o começo do filme me fez dar uma chance. Acho que sempre simpatizo com atores-mirins, e o ator que faz o Lula pequeno é muito simpático na tela. E a Glória Pires também começa com uma grande atuação. O problema vem com o decorrer do filme… que começa a ficar meloso e rápido demais, para emocionar sem nenhuma preocupação muito grande em como fazer isso. Aliás, não gostei da direção dos atores. E não acho que os atores não sejam competentes… Na verdade gostei do trabalho do elenco, num geral. Mas os diálogos pareciam forçados, talvez culpa de um roteiro pouco trabalhado.

Muita coisa faz lembrar Dois Filhos de Francisco, com a diferença de que este segundo parece mais real, se considerarmos o figurino, por exemplo. Em Lula, O Filho do Brasil, a história é interessante e acho importante que todos conheçam melhor a história do presidente. Mas todos os aspectos técnicos do filme vão atrás desse aspecto meio meloso e idealizado, em certos momentos. Claramente foi um filme feito por pessoas bem distantes da realidade mostrada na tela.

Afinal, gostaria de dizer apenas que é um filme interessante de ser assistido pelo contexto histórico, e pra desmascarar algumas mentiras ditas sobre a história do nosso presidente. Por exemplo, Lula tirou 8 em português quando criança (hahaha), e nunca foi analfabeto. E não concordo em dizer que o filme é exatamente “eleitoreiro” porque o filme acaba antes de aparecer o PT. Acaba que a história de Lula é mostrada do ponto de vista de Dona Lindu, mãe de Lula. Uma mulher que nunca desistiu, mesmo com tantos problemas. Uma mulher que “teimou”.

E é melhor não deixar de acrescentar aqui um comentário sobre a melhor cena do filme (na minha opinião), a cena do discurso dele para os trabalhadores no estádio. Incrível. Provavelmente o melhor momento de Rui Ricardo Dias (que interpreta o Lula adulto no filme)

No final, o filme foi aplaudido por todos. Aplausos pouco calorosos, aplausos que apesar de (na maioria) desapontados, reconheciam o filme como uma obra válida. E, para a decepção de Fábio Barreto, poucos viriam a concordar com sua colocação de “obra de arte”. Claro que tudo isso é bastante pessoal. Mas o Festival de Brasília tem uma energia diferente. As pessoas reagem ao filme, e você sente. Você sente a energia. É só prestar alguma atenção.

Dica: Assistam o próximo programa do CQC, que eles estavam cobrindo a abertura e tenho quase certeza de que obtiveram material suficiente pra uma “matéria” realmente engraçada.

Quero Que Você Leia Pantagruel de José Eduardo Alcázar

10/11/2009

José Eduardo Alcázar é brasileiro radicado no Paraguai. Lá, ele é escritor e cineasta e ocupa o posto de editor da La Gaceta de La Asunción.
Primeiramente, este filme me pareceu intimista e experimental. E por sorte entendo algo de espanhol, porque a sessão que assisti estava com as legendas incompletas. Nem cadastrado no imdb este filme está. Me sinto privilegiada. Que bom que existem festivais de cinema!
A história de um senhor intelectual que vive sozinho e que aceita contratar uma jovem menina que procura emprego e abrigo em sua casa é posta de maneira simples na tela. Em alguns momentos esquecemos que estamos observando atores. Ouvimos o que ele tem a dizer sobre literatura, cinema, arte e política. E o quanto quer que a menina aprenda a apreciar tais coisas. É gostoso perceber suas opiniões e sua poesia. O diretor nos deixa familiarizado com a casa e durante o filme conhecemos através de imagens cada cantinho dela. É como se já tivéssemos passado por lá.
Apesar disso, no último pedaço do filme, a história se perde. Ou isso, ou eu não fui capaz de entender muito bem. A outra coisa que me desagradou foi a trilha sonora. A maioria das vezes, a música é colocada de forma que não combina com a cena, onde o silêncio seria mais conveniente. Mas apesar de tudo isso, é um filme difícil de ser avaliado porque, como eu disse, aparenta ser muito intimista e com certeza não foi feito para um grande público.

La Nana de Sebastián Silva

09/11/2009

Este é um daqueles filme que poucas pessoas vão atrás para assisti-lo. Eu nunca tinha ouvido falar e fui assistir de surpresa e aleatoriamente, dentre todos os filmes presentes na edição da FIC deste ano. Raramente faço isso. E mais difícil ainda é que eu acerte na escolha do filme. Porém, desta vez acertei em cheio.
É a primeira vez que vejo um filme que retrata tão bem o universo de uma empregada doméstica. Percebemos que, no Chile, a relação da família com sua empregada é bem parecida com a forma que acontece no Brasil. Essa ideia de que incluímos nossa ajudante ou babá na nossa família é muito bem posta. Mas o filme vai além. O filme entra dentro das angústias da babá, que apesar de ser considerada da família pelos membros desta, sabe que não faz parte dali. E como está ficando velha e cansada, morre de medo de ter seu lugar substituído.
Aí o filme nos mostra que na verdade, Raquel (a babá) só precisava de uma outra perspectiva de alguém na mesma situação que a dela dentro daquela família. Alguém que a ajude a viver e cuidar de sua vida além de só cuidar da dos outros. E o filme mostra isso sem parecer moralista ou meloso demais. Pelo contrário, é muito cuidadoso. Para mim pareceu tão real que espantou.
Aliás, meu espanto existe graças a atuação incrível de Catalina Saavedra. Ela interpreta com um cuidado grandioso neste filme bonito e bem realizado. E é um papel difícil de ser feito sem parecer superficial ou estereotipado.
O filme não é pretensioso. Ele faz o que promete fazer, e muito bem feito. E apesar de desejarmos uma melhoria da imagem, sabemos que isso é culpa do pouco capital envolvido na produção, de forma que não deixei-me incomodar. Espero que Sebastián Silva continue nos surpreendendo, e com filmes ainda mais envolventes. Assim, posso afirmar que da próxima vez não assistirei um filme seu “aleatoriamente”.

Nova York, Eu Te Amo

09/11/2009

Seguindo o mesmo bom exemplo de Paris, Eu Te Amo, um conjunto de 11 diretores dão vida à cidade mais conhecida do mundo, Nova York. As imagens apresentadas nos fazem entrar nesta vida nova-iorquina através dos seus cenários. Os atores, em sua maioria, são encantadores. Os curtas, em sua maioria, despertam graça e suavidade. O filme contém poesia de forma romântica e tranquila.
Mas acho difícil não comparar com o de Paris. Quero dizer, este Nova York, Eu Te Amo perde pontos ao ousar muito menos do que seu antecessor. As histórias acabam sendo parecidas e alguns atores apesar de carismáticos, não conseguem representar a densidade do personagem. E tudo acaba se tornando fofo e poético e só. É gostoso de assistir, com certeza. Mas faltou o que serviu tão bem ao filme Paris, Eu Te Amo: ousadia.
E além disso, cadê Woody Allen no filme? Não é possível que tenham feito um filme em homenagem à Nova York sem a presença dele. Senti falta. Muita mesmo. Vou tentar pesquisar se existe algum motivo específico pra isso ou se foi mancada mesmo.
Agora, um ponto positivo para o filme é a montagem dos curtas, que acontece de um jeito que você mal percebe que cada história é o trabalho de um diretor diferente. E ter, afinal, a personagem central da menina que filma um pedaço da vida de cada um dos outros personagens. Essa intertextualidade dá ao filme um desfecho bonito, gostoso e muito apropriado.

Anticristo de Lars von Trier

08/11/2009

Não me lembro no momento de nenhum outro filme que tenha me perturbado tanto (de forma positiva) quanto este. Se fosse escrever todas minhas impressões do filme, não terminaria nunca. Mas para começar, vou usar uma frase do próprio Lars von Trier: “O Anticristo foi para mim o filme mais importante de toda a minha carreira”. Dito isso, imagino que seja mais fácil prosseguir. Já assisti de sua filmografia os filmes Dançando no Escuro, Dogville e Manderlay. E sempre admirei muito seu trabalho. E tendo como exemplo apenas esses quatro filmes, digo que sim, O Anticristo representa seu trabalho de maior perfeição, no meu ponto de vista.
E isso não quer dizer que este filme foi o que mais me agradou. Para falar bem a verdade, nem sei se terei coragem de assisti-lo novamente. Só que basta analisá-lo e se torna inegável sua importância. O filme é completo e não há ser humano que não se sinta ao menos um pouco perturbado. O fato de o filme trazer várias simbologias também mostra a inteligência do filme ao lidar com um tema dificílimo de ser tratado: A natureza. E além disso, a natureza humana. Lars von Trier consegue, através de símbolos e beleza, nos transportar para o que há de pior no desespero humano. Fazendo referências aos contos de fadas antigos (como os contos dos Irmãos Grimm), ele nos aproxima dos animais mostrando que somos tão parecidos que eles podem resumir para nós todas as nossas angústias, enquanto fingimos que estamos distantes da mesma realidade.
O Éden é onde Ele (o personagem não tem nome) consegue fazer com que sua esposa comece a combater o medo após a morte acidental de seu filho. Lá, ela se sente culpada, e tendo o sexo como culpa ela se desespera e sucumbe aos prazeres da carne. Dizer que é um filme pornô é besteira, diante de tudo o que é discutido no filme. O filme pretende chocar, sim. E choca. E para não entrar em muitos detalhes (porque afinal de contas o bom mesmo é assistir o filme e perceber as referências e simbologias sozinho), vou começar a falar dos aspectos técnicos do filme.
Quando começou o filme, meus olhos brilhavam. O filme é dividido em quatro partes além de prólogo e epílogo. A abertura (o prólogo) é provavelmente a coisa mais linda que já vi no cinema. Meus olhos se encheram de lágrimas e daí eu já não conseguia mais desviar meu olhar dos personagens. A fotografia do filme é de uma beleza estonteante e representa mais uma vez o perfeccionismo típico do diretor. A fotografia ajuda a tornar o filme inteiro mais poético e nos sentimos como dentro de um sonho que nos traz verdades dolorosas de um “eu” escondido por costumes e roupas e racionalidade.
Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg devem ter sofrido para conseguir chegar ao produto final. Porque sem dúvida é um desafio sem tamanho interpretar tais personagens de forma convincente. E Lars von Trier já é conhecido por traumatizar atores de grande porte. Como por exemplo Nicole Kidman. Que já declarou que sente que Dogville está entre os trabalhos mais importantes que já fez, só que ela não seria capaz de trabalhar com Lars von Trier novamente; pelo excesso de detalhes exigidos por este.
Eu não consigo entender as algumas risadas durante o filme. Quero dizer, até entendo… mas por que as pessoas preferem levar as coisas pelo lado mais imaturo? Uma raposa falando não é necessariamente engraçado. Essa cena faz referência aos animais “malignos” que existem em contos de fadas antigos e além disso, nos mostra o quão próximo podemos estar dos animais. É de extrema importância para o filme. Outro exemplo é o sexo. Porque as pessoas ainda querem levar o sexo ou no lado erótico ou no lado engraçado (?) da coisa? O sexo faz parte da vida e pelo menos de vez em quando deve ser observado com mais maturidade e seriedade. Porque só se assim for feito que é possível entender a importância das cenas no filme, que retratam o “prazer da carne” e o sexo como culpa.
Para finalizar, digo que consigo entender quem não gostou do filme e acho que este fato acontece não pelo filme, e sim pela falta de química do espectador com o diretor. Mas quem detona o filme, me desculpa, não consigo entender de modo algum. As vezes penso que falar mal de um filme como esse é puro modismo ou então a pessoa não assistiu o mesmo filme que eu. Ou, o que deve ser ainda mais comum, não conseguiu entendê-lo muito bem, seja lá qual for o motivo.